quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Cheiro a mar

Hoje em conversa com alguém que está a viver fora bateu-me (e bem forte) as saudades da vida de emigra, a saltar de casa em casa e de país em país. 
Desde que cheguei de Itália em 2007 que assentei arraiais e não quis (mesmo) voltar a ouvir falar em viver fora. Não me preocupo em saber se é algo definitivo ou temporário, o que será será. 
Mas hoje... ouvir as histórias da procura de casa, pessoas estranhas que se conheceu, etc etc lembrou-me este post que escrevi em 2007, na altura a viver na Holanda. E lembrei-me dos tempos em que queria ser marinheira e mercadora, com medo de me ancorar a uma terra que não movesse. 
Conclusões? Agora estou bem aqui. Tão bem que nem me lembro de vir escrever ni meu blog, mas o futuro a deus pertence ;)

Fantasmas

Quando fugimos de um fantasma sabemos que nem vale a pena correr. 
Continuamos com a nossa vida como se nada fosse. Vivemos tudo com a naturalidade de quando nada se passa. Sem fazer barulho, sem contar a ninguém. É um segredo nosso que estamos a fugir, do fantasma que ainda não nos apanhou. 
A vida segue, com sabor a bónus, mas sabendo que quando o fantasma quiser somos engolidos e tudo acabou. 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Perdidos e achados

Uma vez, tinha uns 5 anos, quando a andar na rua encontrei um gatinho perdido. Era pequeno, fofissimo e ronronante, igualzinho aos das revistas e calendários.
Lembro-me de lhe pegar ao colo, fazer festivas (e ouvir aquele ronron imediato) e implorar à minha mãe para ficar com ele. Era lindo e queria-o mais do que tudo, mas tive de compreender que não estava abandonado e que a sua dona de certeza que quereria voltar a ficar com ele. Podia estar perdido agora... mas não tardaria muito a querer recuperá-lo, consciente da perda que seria ficar sem ele.
Ainda me lembro do que me custou largá-lo... mas há certas coisas que temos mesmo de aprender em pequenos, para reconhecer as situações mais tarde e deixá-las ir...

Nem tudo o que encontramos pode algum dia nos pertencer.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Por aí

Há dois anos jurei não voltar a pisar as ruas desta cidade. 
Não sem antes terem passado dez anos. Não sem antes ter tido filhos e lhes vir mostrar a cidade onde a mãe deles tinha vivido quando era nova. 
Como o trabalho não me permite tal luxo, aqui estou, sem estar. 
Passo por estas ruas sem as pisar. Deslizo pelas sombras e pelas avenidas cheias de gente onde ninguém me consegue ver. Existo com o corpo de um fantasma que passa pelos sítios sem os tocar nem deixar pegadas. 

Quem pensa que me viu que se desengane: olhou apenas para a sua memória. 

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A dada altura o mundo vem para nos cobrar toda a ajuda que alguma vez recebemos. 
Aquela que de tão grande, silenciosa, discreta e sábia, não conseguimos sequer agradecer. 

É fácil fugir mas se não a dermos não merecemos sequer a vida que temos! 

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Greve

Havia aquele gajo que era tão radical, tão radical, que vivia sozinho e mesmo assim fugiu de casa. 
Eu sou aquela pessoa que era tão radical, tão radical que trabalhava por conta própria e mesmo assim fez greve!

(post colocado a dia 25 por motivos óbvios ;)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Sem esquecer

Penso para comigo e partilho muitas vezes para com os meus turistas que talvez fosse capaz de perdoar à ditadura de Salazar a Guerra Colonial, a fome e todos os presos e mortos políticos mas que jamais seria capaz de perdoar o atraso cultural em que nos deixou, que tantos anos depois ainda se sente e vive, ainda que de maneira subtil. 
Ao mesmo tempo, penso que talvez um dia seja capaz de perdoar aos governos dos últimos 15 anos a dívida externa e as sucessivas medidas de austeridade mal distribuidas, mas jamais lhes serei capaz de perdoar terem obrigado tantos jovens a emigrar e a ir embora, das tantas maneiras possíveis. Estando o problema mesmo aí: nas "tantas maneiras possíveis".

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Crescer

Desde que nascemos que é implícito que vamos crescer. 
Ainda somos bem pequeninos quando começamos a sonhar com o "quando eu for grande" e a nossa mãe nos diz "come a sopa toda para cresceres".
E ainda assim, nunca nos preparamos realmente para isso. 
Podemos começar a fazer coisas diferentes, trocar o secundário pela universidade e o autocarro pela mota ou pelo carro, sentimo-nos diferentes. 
E mesmo assim nunca pensamos nos problemas diferentes que teremos. 
Ninguém nos explica de maneira credível que pior do que os problemas rabiscados num pedaço de papel durante a aula de português são aqueles que não se dizem e se dão somente a entender (ou nem isso). Pior do que os dramas que nos fazem gritar ("a sério??") são aqueles que nos deixam sem palavras e um grande aperto no peito. Piores do que aqueles que nos deixam preocupados porque teremos de avançar e resolvê-los, são aqueles em que nada podemos fazer. 
Se me tivessem explicado tudo isto em pequenina, talvez não tivesse comido a sopa toda.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

A petecia-me escrever qualquer coisa. Qualquer coisa bonita, inteligente, inspiradora e profunda.
Daquele tipo de coisas que se escrevem depois de mega crises existênciais, quando começamos a crer que aquele filão de pedra um pouco mais brilhante (ou menos escuro) é a famosa luz ao fundo do túnel.
Mas não sou capaz.
Não que esteja em baixo, que não estou, mas mesmo quando estamos a voar livremente pelos céus, quando flutuamos de alegria, quando nos sentimos capazes de sei lá o quê de tanta felicidade que contemos, reparamos sempre que deixámos uma pequena pedra no nosso bolso, que nos está a puxar para baixo e que áquela altitude, por muito cuidado com que se atire para o chão, vai ter sempre o efeito de uma bala.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Causa - efeito

Desde a mais tenra idade que os bebés se surpreendem com uma relação muito simples: a da causa e do efeito. Com o simples apertar este botão e sair um som. Mandar ao chão e aquilo se partir... e por aí fora.
Com o tempo, crescimento e desenvolvimento, isto devia-se tornar em algo banal. Ora se para algumas coisas o é, noutras continua a surpreender e quase encantar!


Admito o quanto ainda me surpreende por vezes o simples facto de querer algo, caminhar nessa direcção, fazer por isso... e as coisas acontecem! :)
É de facto simples mas de tão simples, por vezes esquecemo-nos disso! :)

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Biblioteca Itinerante Calouste Gulbenkian

Ouvir um apito longo de carrinha numa tarde de Primavera, apesar de poder parecer banal, fez-me viajar no tempo e lembrar dos tempos em que "vinha a biblioteca".
A biblioteca era a carrinha castanha, atulhada de livros da Biblioteca Itinerante Calouste Gulbenkian, que passava por sítios lonínquos muito antes de existirem livrarias ou centros comerciais aqui ao pé.
"Vir a biblioteca" não era só vir a carrinha. Era um mundo mágico que lá vinha dentro. Primeiro, quando se ouvia a buzina, ia-se a correr chamar 2 ou 3 vizinhos, com medo que eles não tivessem ouvido: a Biblioteca não era algo que se pudesse perder. Depois iamos todos juntos até ao sítio onde a Biblioteca parava, em grande algazarra, porque estava ali A Biblioteca. Vinham "os senhores da Biblioteca" que me ajudavam a escolher os livros (e me viam a crescer em termos literários). E vinham os livros todos. Esse sim era o encanto porque se podia escolher 5 livros dentro daquelas estantes todas... acho que era o sítio com mais livros juntos que eu já tinha visto! E havia duas prateleiras para mim, um em cima da outra, ao lado do condutor, com pérolas como o "Pequenú" (o maior desafio, visto terem 300 páginas cada livro"), de onde eu ia tirando e escolhendo livros. Durante uma semana ou duas, brincava menos na rua, porque tinha os meus livros para ler. Ao fim de 3 semanas já os tinha lido todos e aí havia que emprestar livros entre vizinhos, para poder continuar a lêr.
Hoje em dia estas bibliotecas são vistas como o cúmulo da ruralidade, talvez pobreza, ou outras coisas menos "inn", mas pergunto-me se alguém consegue ler 5 livros por mês. Mesmo tendo tempo para os lêr, conseguiria comprá-los? Não me parece!

Projectos como este são sim o cúmulo do altruismo e da inclusão. Levar livros a toda a gente, 5livros por mês, onde quer que as pessoas estejam. Não seria certamente quem sou se todos estes livros não tivessem vindo ter comigo!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

7 anos

Claro que, uma vez mais, deixei passar o aniversário do Blog!
7 anos... ai a despesa com os livros da escola! ;)

sábado, 9 de abril de 2011

Coraline e a Porta secreta

- Vem Coraline, vem para o meu mundo e olha como ele é lindo.
- Oh, ele é de facto magnífico, é tudo tão lindo. - dizia Coraline encantada em redor. Deliciada, convenceu-se de que a sua falsa mãe tinha criado um mundo verdadeiramente lindo, e trocou-o pelo seu.

Certa noite, o gato acordou Coraline e disse-lhe: "vem, vou levar-te a dar um passeio". Meio estremunhada ela aceitou e deixou-se então levar pelo gato que lhe começou a mostrar áreas que ela antes não tinha visto. Era tudo escuro, era tudo feio e partido.
- Ah, o que é isto?
- Isto não era para tu veres, por isso, a tua falsa mãe ainda não construiu.

História do "Coraline e a porta secreta" (espero que tenha dado para entender) e ilustra na perfeição o que é estar num resort no México. Tudo lindo, o que é para eu ver. O resto, eles não construiram.

domingo, 6 de março de 2011

1 2 3 vou nascer outra vez

Quando se vê um vizinho, um primo ou um sobrinho a crescer é giro e transforma-se em todo um processo quase imperceptível e interessante.
Mas quando nos sentimos a nós próprios a crescer, nos olhamos ao espelho e já quase lá vemos outra cara, aí é estranho. E há outra pessoa para conhecer.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Primeiro fechamos bem as portas e as janelas com medo dos assaltos. Depois pomos grades para afastar pessoas inconvenientes. A seguir até aqueles conhecidos menos interessantes nos começam a incomodar mais e por isso pomos uns cortinados bem compridos, para que não se veja nada para dentro (nem tenhamos que ver o que se passa lá por fora). Mas a dada altura não chega. E há que colocar uns estores bem fechadinhos para que nem a luz do Sol, essa galdéria que passa por toda a gente, passe por nós também.
Com tanto conforto dentro de casa, e um isolamento que não se consegue criar lá fora facilmente, deixamos de sair, claro.
Isolamo-nos tão bem que a dada altura quase desejamos que um ladrão nos invada a casa para ter alguém com quem conversar...

Abre os estores, as cortinas, tira as grades, abre as portas e as janelas e vai lá para fora gozar a luz o do Sol, como antes.
Beijinhos.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Publicidade e Aidma

Hoje em dia a publicidade vende-nos tudo e tudo o que ela vende, nós vamos atrás e compramos.
Claro que há coisas que gostávamos de poder comprar e não compramos, mas a maioria dessas coisas é colocada pelo nosso cérebro numa caixinha chamada "inatingível", que serve justamente para esse tipo de coisas não incomodar nem chatear.
Só há uma (talvez duas) que eles nos vendem e não se compram. Provavelmente a maioria está a pensar na felicidade, mas eu refiro-me mesmo aos amigos (como se uma coisa existisse sem a outra).
Em certos produtos o objecto da venda (ou pelo menos o desejo de quem compra) é mesmo esse, mas se nos habituámos a ir a correr comprar tudo o que nos vendem, nesse não podemos e é daí que vem a frustração.
Aqueles grupos de amigos gigantescos, super divertidos a sair juntos, fazer coisas na praia, que se amam e se divertem imenso... vamos ser realistas, quantos de nós é que os têm? Acho que é uma das lutas mais duras e complicadas, uma das coisas mais difíceis de se conseguir: a vida pessoal.
Por ser um processo que requer tanta manutenção e leva tempo a construir a sociedade acabou por colocá-lo de parte, como se fosse uma coisa boa mas que se não se tiver, não faz mal. E começou a dar mais valor à vida profissional. Essa sim, tem de ser brilhante e a sua importância é inquestionável. Fica tão bem ganhar-se bem, fica tão bem ter amigos do trabalho, fica tão bem dizer-se "estou cheia de trabalho, tive de ficar a trabalhar até tarde" (embora por sua vez fique mal pedir ao patrão que pague as horas extra, que isso é coisa de operário).
Começo a perceber que quando falam do trabalho, se for um emprego de nome ou de salário pomposo as pessoas falam não para se queixar, mas para se vangloriar. E descobri porque é que alguém se torna workaholic e não é pelo dinheiro. É que quando uma única coisa nos corre bem na vida é bem mais fácil refugiarmo-nos nela do que sair do conforto e ir lá para fora sujeitarmo-nos a apanhar porrada. Ainda por cima a sociedade acha que fica bem. E o chefe fez um elogio. E porque sim. Pronto.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Right now

    Uma coisa é pensar no assunto e ver que aquela é a melhor opção. Que faz todo o sentido, que há que o fazer e decidir o quê e quando se fará. Ainda que num futúro próximo, é fácil
     Outra coisa, e bem mais difícil, é fazê-lo neste momento. Sair de casa para o fazer, pisar a soleira indo nessa direcção e concretizando tudo. Isso é que é difícil. Há motivos, desculpas, medos e receios que se refugiam em pequenas coisas reais, que quase chegam para nos enganar a nós próprios, por vezes até num simples e falso "não tive tempo".
    Mas há uma altura em que chega e em que tudo isso tem um sabor a vazio e usado. É por isso que este post vai ficar incompleto, porque eu vou beber o resto do café, vestir o casaco, pegar nas chaves, fechar a porta e sair de casa para o fazer. Neste momento, sem adiar nem olhar para trás

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

   Nunca conheci casal mais diferente do que os meus pais. Se um dizia direita, o outro tinha a certeza absoluta que era esquerda, se um dizia que ainda era cedo, o outro estava em pânico porque não queria chegar atrasaso, e os exemplos podiam continuar por aí fora. Nem discutiam muito, porque a minha mãe se calava, mas a coisa sempre me divertiu e podia-me pendurar para um lado ou para o outro, conforme me convinha. Dava jeito.
    Certa vez, tinha 5 ou 6 anos e constipei-me. Lembro-me vagamente da história, de que a gripe não queria e não queria passar. Claro que eles também discordavam nisto: a minha mãe queria-me levar ao hospital e o meu pai, no ar descontraído que sempre o acompanhou, defendia que não valia a pena, que a gripe passava sózinha. Na altura a minha mãe ainda não tinha carta e por isso, para me levar ao médico tinha de o convencer primeiro...
    Desta parte lembro-me como se fosse hoje: era segunda feira, tinhamos jantado batatas fritas com salsichas e ovo estrelado (a vantagem de estar doente é que podia escolher o menu e na altura este era o meu prato preferido), eu estava sentada no sofá a ver televisão (criança mais feliz é dificil imaginar) e a discução deles continuava "ela jantou tão bem, já tá quase boa...." -"oh marido...." não me lembro do resto da frase, mas sei que fomos ao hospital. O velho hospital de Sintra, com aqueles azueljos brancos e montes de cartazes de doenças na sala de espera. E lembro-me do olhar lancinante da minha mãe, contra o meu pai, com aqueles azulejos de fundo, quando o médico sai cá para a fora e diz "a menina tem uma broncopneumonia, ainda bem que a trouxeram cá hoje, amanhã podia já ser tarde".
    Sentada no banco de trás da Peugeot 504, eu estava feliz: tinha jantado batatas fritas com salsichas e ainda por cima tinhamos ido passear de carro à noite. Não entendia o silêncio entre os meus pais, nem o olhar furioso da minha mãe.
Lembro-me de tudo isto como se fosse hoje.

   E porquê que estou a contar isto?
    Como toda a gente diz, eu saí ao meu pai. E pela segunda vez decidi não ir ao médico no início de uma doença simples para ir ao médico 1semana depois e acabar a tomar doses cavalares de medicamentos e antibióticos.