sábado, 26 de fevereiro de 2011

Primeiro fechamos bem as portas e as janelas com medo dos assaltos. Depois pomos grades para afastar pessoas inconvenientes. A seguir até aqueles conhecidos menos interessantes nos começam a incomodar mais e por isso pomos uns cortinados bem compridos, para que não se veja nada para dentro (nem tenhamos que ver o que se passa lá por fora). Mas a dada altura não chega. E há que colocar uns estores bem fechadinhos para que nem a luz do Sol, essa galdéria que passa por toda a gente, passe por nós também.
Com tanto conforto dentro de casa, e um isolamento que não se consegue criar lá fora facilmente, deixamos de sair, claro.
Isolamo-nos tão bem que a dada altura quase desejamos que um ladrão nos invada a casa para ter alguém com quem conversar...

Abre os estores, as cortinas, tira as grades, abre as portas e as janelas e vai lá para fora gozar a luz o do Sol, como antes.
Beijinhos.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Publicidade e Aidma

Hoje em dia a publicidade vende-nos tudo e tudo o que ela vende, nós vamos atrás e compramos.
Claro que há coisas que gostávamos de poder comprar e não compramos, mas a maioria dessas coisas é colocada pelo nosso cérebro numa caixinha chamada "inatingível", que serve justamente para esse tipo de coisas não incomodar nem chatear.
Só há uma (talvez duas) que eles nos vendem e não se compram. Provavelmente a maioria está a pensar na felicidade, mas eu refiro-me mesmo aos amigos (como se uma coisa existisse sem a outra).
Em certos produtos o objecto da venda (ou pelo menos o desejo de quem compra) é mesmo esse, mas se nos habituámos a ir a correr comprar tudo o que nos vendem, nesse não podemos e é daí que vem a frustração.
Aqueles grupos de amigos gigantescos, super divertidos a sair juntos, fazer coisas na praia, que se amam e se divertem imenso... vamos ser realistas, quantos de nós é que os têm? Acho que é uma das lutas mais duras e complicadas, uma das coisas mais difíceis de se conseguir: a vida pessoal.
Por ser um processo que requer tanta manutenção e leva tempo a construir a sociedade acabou por colocá-lo de parte, como se fosse uma coisa boa mas que se não se tiver, não faz mal. E começou a dar mais valor à vida profissional. Essa sim, tem de ser brilhante e a sua importância é inquestionável. Fica tão bem ganhar-se bem, fica tão bem ter amigos do trabalho, fica tão bem dizer-se "estou cheia de trabalho, tive de ficar a trabalhar até tarde" (embora por sua vez fique mal pedir ao patrão que pague as horas extra, que isso é coisa de operário).
Começo a perceber que quando falam do trabalho, se for um emprego de nome ou de salário pomposo as pessoas falam não para se queixar, mas para se vangloriar. E descobri porque é que alguém se torna workaholic e não é pelo dinheiro. É que quando uma única coisa nos corre bem na vida é bem mais fácil refugiarmo-nos nela do que sair do conforto e ir lá para fora sujeitarmo-nos a apanhar porrada. Ainda por cima a sociedade acha que fica bem. E o chefe fez um elogio. E porque sim. Pronto.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Right now

    Uma coisa é pensar no assunto e ver que aquela é a melhor opção. Que faz todo o sentido, que há que o fazer e decidir o quê e quando se fará. Ainda que num futúro próximo, é fácil
     Outra coisa, e bem mais difícil, é fazê-lo neste momento. Sair de casa para o fazer, pisar a soleira indo nessa direcção e concretizando tudo. Isso é que é difícil. Há motivos, desculpas, medos e receios que se refugiam em pequenas coisas reais, que quase chegam para nos enganar a nós próprios, por vezes até num simples e falso "não tive tempo".
    Mas há uma altura em que chega e em que tudo isso tem um sabor a vazio e usado. É por isso que este post vai ficar incompleto, porque eu vou beber o resto do café, vestir o casaco, pegar nas chaves, fechar a porta e sair de casa para o fazer. Neste momento, sem adiar nem olhar para trás

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

   Nunca conheci casal mais diferente do que os meus pais. Se um dizia direita, o outro tinha a certeza absoluta que era esquerda, se um dizia que ainda era cedo, o outro estava em pânico porque não queria chegar atrasaso, e os exemplos podiam continuar por aí fora. Nem discutiam muito, porque a minha mãe se calava, mas a coisa sempre me divertiu e podia-me pendurar para um lado ou para o outro, conforme me convinha. Dava jeito.
    Certa vez, tinha 5 ou 6 anos e constipei-me. Lembro-me vagamente da história, de que a gripe não queria e não queria passar. Claro que eles também discordavam nisto: a minha mãe queria-me levar ao hospital e o meu pai, no ar descontraído que sempre o acompanhou, defendia que não valia a pena, que a gripe passava sózinha. Na altura a minha mãe ainda não tinha carta e por isso, para me levar ao médico tinha de o convencer primeiro...
    Desta parte lembro-me como se fosse hoje: era segunda feira, tinhamos jantado batatas fritas com salsichas e ovo estrelado (a vantagem de estar doente é que podia escolher o menu e na altura este era o meu prato preferido), eu estava sentada no sofá a ver televisão (criança mais feliz é dificil imaginar) e a discução deles continuava "ela jantou tão bem, já tá quase boa...." -"oh marido...." não me lembro do resto da frase, mas sei que fomos ao hospital. O velho hospital de Sintra, com aqueles azueljos brancos e montes de cartazes de doenças na sala de espera. E lembro-me do olhar lancinante da minha mãe, contra o meu pai, com aqueles azulejos de fundo, quando o médico sai cá para a fora e diz "a menina tem uma broncopneumonia, ainda bem que a trouxeram cá hoje, amanhã podia já ser tarde".
    Sentada no banco de trás da Peugeot 504, eu estava feliz: tinha jantado batatas fritas com salsichas e ainda por cima tinhamos ido passear de carro à noite. Não entendia o silêncio entre os meus pais, nem o olhar furioso da minha mãe.
Lembro-me de tudo isto como se fosse hoje.

   E porquê que estou a contar isto?
    Como toda a gente diz, eu saí ao meu pai. E pela segunda vez decidi não ir ao médico no início de uma doença simples para ir ao médico 1semana depois e acabar a tomar doses cavalares de medicamentos e antibióticos.